Cresce demanda por energia renovável

Por: Energy Future  |    19/05/2020
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Em vigor em quase todos os países, medidas de contenção ao coronavírus promovem o aumento da participação de fontes renováveis ​​na geração de energia elétrica.

As medidas de contenção à Covid-19 reduziram a demanda por eletricidade no mundo, levando a mudanças no cenário de geração da energia elétrica, com o protagonismo das fontes renováveis.

O aumento do consumo residencial, frente à redução das atividades comerciais e industriais, não compensou a queda da demanda. Dados diários coletados pela Agência Internacional de Energia (IEA, sigla em inglês), em mais de 30 países, mostram que a demanda diminuiu em 20%, em média, nos meses em que os países adotaram restrições mais rigorosas de isolamento.

Com isso, no 1° trimestre de 2020, a parcela de energia renovável chegou a 28%, comparada a 26% no 1° trimestre de 2019, dado que a geração dessas fontes não está relacionada à demanda da eletricidade. O crescimento deu-se pelo aumento percentual de dois dígitos na energia eólica e no salto na produção solar fotovoltaica de projetos iniciados ainda no ano passado.

Em contrapartida ao aumento da geração de energia renovável, no mesmo período, caiu a demanda de quase todas as outras fontes de eletricidade, incluindo carvão, gás e nuclear.

No caso da geração nuclear, houve uma redução de 3%, em resposta à paralisação da operação de turbinas em algumas partes do mundo. Já o carvão viu perdas em todas as frentes.

Em alguns mercados, surgiram, pela primeira vez, oportunidades de troca de carvão para gás com base nos custos de combustível, levando a queda de 8% da geração a carvão no 1° trimestre de 2020 em relação ao 1° trimestre de 2019, segundo os dados da IEA.


Por quanto tempo isso dura?

Na projeção da Agência Internacional de Energia para 2020, a demanda global de eletricidade cairia 5%, com reduções de 10% em algumas regiões do mundo. Esse seria o maior declínio desde a Grande Depressão e seria oito vezes a redução sofrida em 2009 devido à crise financeira global.

A redução de 5% na demanda mundial por energia elétrica, chegando a 10% em algumas regiões, seria o maior declínio desde a depressão de 1929 e representaria 8x a redução ocorrida em 2009 devido à crise financeira.

Uma recuperação econômica mais rápida em forma de V reduziria pela metade o impacto na demanda de eletricidade, levando a menores quedas ano a ano do carvão, gás e energia nuclear.

Já com uma recuperação econômica mais lenta e com a ampliação da Covid-19 nos países em desenvolvimento, a redução da demanda pode ser ainda maior, ressaltando a possibilidade de uma segunda onda da pandemia no outono nas economias avançadas, que provocaria um declínio superior a 5%.

De qualquer maneira, a pandemia vem ilustrando a vulnerabilidade dos combustíveis fósseis quanto a problemas de armazenamento e de distribuição. Como exemplo, os preços do petróleo ficaram negativos pela primeira vez nos EUA no início deste mês.

Ao mesmo tempo, a crise do coronavírus sublinha a necessidade por energia elétrica confiável para suprir as necessidades diárias das residências e das empresas.

Para o diretor executivo da AIE, Fatih Birol, os governos têm a oportunidade de colocar tecnologias de energia limpa - renováveis, eficiência energética, baterias, hidrogênio e captura de carbono - no centro de seus planos de recuperação econômica.

"Investir nessas áreas pode criar empregos, tornar as economias mais competitivas e direcionar o mundo para um futuro de energia mais resiliente e mais limpa", afirma Birol.


O impacto pelo mundo

Em todas as regiões que adotaram medidas de isolamento, o fornecimento de eletricidade passou por uma mudança notável em direção a fontes de energia renováveis no primeiro trimestre de 2020.

Gráfico

A China teve a maior redução na geração de energia a carvão, cerca de 100 TWh, impulsionando o declínio global, uma vez que o país é de longe o maior produtor de eletricidade a partir dessa fonte de energia.

Na União Européia, a parcela de renováveis ​​na geração de energia elétrica aumentou nas semanas após o início das medidas de isolamento, em parte devido à menor demanda.

Nos Estados Unidos, o declínio da geração de energia a carvão acelerou nas semanas após o início do lockdown. A geração a gás caiu ligeiramente, enquanto a geração a partir de fontes renováveis ​​aumentou. No geral, a geração a carvão, nos Estados Unidos, no primeiro trimestre de 2020, caiu um terço em relação ao primeiro trimestre de 2019, pressionada pela menor demanda, gás mais barato e aumento de 20% na produção de energia eólica e solar fotovoltaica.

Na Índia, as medidas com efeito imediato em todo país levaram à queda da geração de energia a carvão no primeiro trimestre de 2020, comparado ao 1° trimestre de 2019, aproximando os percentuais de energias renováveis ​​e carvão na geração de eletricidade.


Geração no Brasil

O Brasil não aparece no detalhamento do estudo da agência, mas de acordo com o boletim quinzenal divulgado pela Câmara de Comercialização de Energia Elétrica (CCEE), a geração eólica apresentou um aumento de 17,2% na geração de energia em abril, na comparação com o mesmo mês no ano passado. Assim como a fonte solar, que apresentou avanço no período, saltando para 41%, com 680 MW médios.

Já a geração hidráulica, que reúne hidrelétricas de grande e pequeno porte, apresentou retração de 14,6%, com 45.556 MW médios, da mesma forma que produção termelétrica, com recuo de 11,7% no período para 8.236 MW médios.

Com o impacto do coronavírus no setor elétrico nacional, os dados do Sistema Interligado Nacional (SIN) indicam uma redução de 12% na produção de energia, caindo de 66.482 MW médios em abril do ano passado para 58.813 MW médios em 2020.


Ponto da curva: análise de outros cenários

De acordo com as avaliações da Agência Internacional de Energia, uma recuperação em forma de U levaria as fontes de eletricidade de baixo carbono à frente da geração a carvão em todo o mundo em 2020.

Espera-se que a participação na geração de baixo carbono suba para 40% em 2020, o nível mais alto já registrado, em parte porque o total de geração cairia quase 5%. As fontes de baixo carbono estariam seis pontos percentuais à frente do carvão, depois de assumir a liderança em 2019.

As energias renováveis ​​devem atingir assim o nível mais alto em termos de produção e participação. A energia eólica e solar deve aumentar devido a novos projetos que foram construídos no ano passado, elevando a participação na geração para quase 9% em 2020.

A geração a carvão seria pressionada, caindo 10% em 2020. A geração a gás também seria atingida com força, afundando cerca de 7% no ano, a maior queda já registrada.

Em um contexto de recuperação mais rápida, aumentaria a demanda de eletricidade, crescendo a produção por todas as fontes geradoras de eletricidade. A geração a carvão e a gás ainda cairia, mas apenas a metade. Mas, ainda assim, as fontes de baixo carbono ultrapassariam a geração a carvão.

De um lado, energias renováveis ​​sofreriam um crescimento adicional, à medida em que mais projetos fossem concluídos, principalmente projetos fotovoltaicos solares. Do outro lado, energia nuclear se recuperaria para quase igualar a produção de 2019 ao longo de 2020.

Já em um cenário de recuperação mais lenta, o carvão, o gás e a energia nuclear seriam mais pressionados, levando a uma maior mudança para fontes de energia renováveis ​​no mix geral de geração de energia.

Ao que tudo indica, a crise do coronavírus pode ser o catalisador na substituição de fontes fósseis por fontes renováveis.