Inovação X Risco: dois lados de uma mesma moeda

Por: Energy Future  |    13/12/2019
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No dilema se é possível inovar sem riscos, ou empreender sem erros, conhecer melhor a natureza da inovação (ou dos riscos) ajuda na tomada das decisões.

A interação entre inovação e risco é uma prática com a qual empreendedores precisam aprender a lidar desde o estado embrionário de uma proposta inovadora. Duas partes que não se opõem, mas se integram e se potencializam de acordo com as proporções que assumem.

E por mais assustador que possa parecer, o risco é um aspecto intrínseco à inovação. Mas será que é possível gerenciá-lo, aprendendo a conviver com ele? Para responder essa pergunta, é importante um passo atrás. E entender melhor o que define as duas partes da mesma moeda.

E o que é mesmo inovação?

Inovação é mudar a forma de fazermos as coisas. É ter novas ideias e colocá-las em prática. Uma inovação bem-sucedida aumenta eficiência e escala, podendo expandir bens e serviços disponíveis a alguns para toda sociedade.

Considerado o profeta da inovação, o economista austríaco Joseph Schumpeter fornece uma definição do termo. Para ele, inovação seria o desenvolvimento de novas ideias (nomeada por ele “Invenções”) em produtos e processos, que se espalharam pelo mercado no que chamou de “difusão”.

As ideias de Schumpeter (1883-1950) sobre inovação, capitalismo e empreendedorismo são consideradas disruptivas, principalmente pela época que as divulgou, décadas de 20 e 30, e até hoje ecoa entre acadêmicos e empresários.

Durante a Grande Depressão em 1929, o economista foi contrário ao pensamento corrente daquele momento, de que tecnologia havia chegado ao limite, bem como o capitalismo. Schumpeter não somente afirmou que o sistema iria se desenvolver por meio da tecnologia, como empreendedores teriam papel vital: “Sem inovações, não há empreendedores; sem empreendedorismo, o capitalismo não gera retorno, e tampouco há o que possa impulsioná-lo”, afirmou. A história provou que ele estava certo.

Um estudo feito pela Universidade de Oxford nos ajuda a entender de forma mais ampliada o conceito proposto por Schumpeter. De acordo com relatório da Oxford Martin School, inovação é mais que uma invenção, uma vez que não basta apenas ser criativo com uma ideia, mas colocá-la em prática. Inovação também é mais do que apenas produtos físicos, e ocorre em todos os setores de atividades.

Nem toda inovação é revolucionária; existem inovações radicais e incrementais. Enquanto a radical tende a mudar completamente a forma de fazer algo, com resultados bastante imprevisíveis, a incremental baseia-se na realização de pequenas melhorias às tecnologias e práticas existentes, podendo ser previsível no curto prazo, mas com imensas mudanças a longo.

Nem todas as inovações alteram as estruturas ou deslocam líderes de mercado, podendo ser sustentável na estrutura atual ou disruptivas com a criação de novos negócios.

Por fim, o estudo afirma que a inovação cria e destrói, e a distribuição de ganhos e perdas é muitas vezes desigual. Embora inovações tragam benefícios generalizados e de longo prazo, elas muitas vezes também implicam em custos econômicos concentrados em alguns grupos. Se a mudança for mal gerenciada, pode gerar custos sociais, um exemplo é o desemprego.

E onde entram os riscos?

Para entender um pouco mais a natureza do risco, devemos consultar outro austríaco também visionário que contribuiu bastante na área da administração moderna, Peter Drucker.

Drucker escreveu que a inovação para ser proposital resulta da análise, revisão sistêmica e trabalho duro, podendo ser ensinada, replicada e aprendida. Para ele, um sistema de inovação começa com a análise de oportunidades.

Mas se há oportunidades, em contrapartida, também existem riscos. Assim, para o autor, a inovação por natureza é arriscada, assim como toda atividade econômica. Ele defendeu que o conservadorismo de velhas ideias e de antigos modelos custaria mais que o risco de novas propostas: “Mais arriscado que mudar é continuar fazendo a mesma coisa”, afirmou.

“Mais arriscado que mudar é continuar fazendo a mesma coisa.” Peter Drucker.

Drucker afirmou que os inovadores definem riscos e buscam minimizá-los. A partir de uma análise sistemática da oportunidade, seria também possível determinar os riscos e confrontá-los. Ou seja, para minimizar falhas e consequências indesejadas, empreendedores precisariam ir atrás de escolhas embasadas.

Portanto, o grau de risco de uma inovação depende de escolhas. Quanto mais informadas e conscientes forem as escolhas, pela lógica, menor deve ser o risco. O risco não passa assim a inexistir, mas ser gerenciável.

Alguns riscos são guias apropriados para a tomada de decisões.

Portanto, estar exposto ao risco faz parte dos negócios. Mas alguns riscos são guias apropriados para a tomada de decisões, enquanto outros podem ser simplesmente impostos. Decidir não continuar com investimento em inovação porque existe um alto risco de demanda insuficiente é uma decisão sensata. Decidir não prosseguir com uma proposta promissora de inovação devido aos riscos impostos pela imprevisibilidade é uma oportunidade perdida.

Driblando a natureza humana

Compreender como nossos instintos influenciam nas avaliações de risco pode nos ajudar a fazer melhores escolhas. Estudos mostram que os seres humanos geralmente usam as heurísticas, atalhos mentais na tomada de decisão. Com essa estratégia, nossos processos cognitivos ignoram parte da informação com objetivo de tornar a escolha mais fácil e rápida.

Essa natureza mental, apesar de nos ser bastante vantajosa, nos leva a erros. Foi o que provou o estudo sistemático dos psicólogos Amos Tversky e Daniel Kahnerman. Eles observaram que mesmo profissionais treinados na avaliação de riscos recorriam de forma constante à técnica do atalho. Os estudos tiveram bastante impacto nos campos da psicologia, economia e política.

Um exemplo prático dos estudos de Tversky e Kahnerman foi a descoberta de que as pessoas, muitas vezes, estimavam a probabilidade de um evento ocorrer pela forma como elas se recordavam ou conseguiam gerar padrões disso.

Vamos fazer um teste prático. Você acredita que há mais palavras que comecem ou terminem com a letra a na Língua Portuguesa? Provavelmente, você deve ter quase de imediato tentado se recordar de palavras que comecem com a vogal. Depois, possivelmente, você tentou se lembrar das palavras que terminam com a letra. Assim, a partir de uma recorrência, da disponibilidade de lembranças, chegaremos às nossas conclusões.

De fato a letra a é uma constância no nosso vocabulário. Ela lidera o ranking das letras finais de palavras, mas não é a campeã das letras iniciais, posto ocupado pela letra d, de acordo com estudo realizado pelo Grupo de Teleinformática e Automação da UFRJ.

Tversky e Kahneman chamaram esse processo de "Heurística da disponibilidade" e você pode ver por que geralmente funciona, mas também nos desvia da solução embasada de forma correta. Isso ajuda a explicar porque após grandes desastres, tendemos a lembrar de renovar seguros e a evitar os supostos “riscos”.

Outro exemplo é a nossa tendência de hipervalorizar resultados positivos, que consideramos certos, em relação aos resultados melhores, mas que não temos total certeza (o efeito certeza). Ao mesmo tempo em que a todo custo evitamos o prejuízo, que contrabalanceamos com um possível ganho (aversão à perda).

Tversky e Kahneman usaram alguns modelos de apostas para comprovar a teoria. O objetivo era mostrar o efeito certeza em combinação com a aversão à perda. Na primeira oferta da pesquisa foi feita a seguinte pergunta: Você prefere ter 80% de chance de ganhar £ 4.000 ou a certeza de receber £3,000? 80% dos entrevistados ficaram com a segunda opção. Na próxima oferta, foi colocada a seguinte questão: você prefere ter 80% de chance de perder £ 4.000 ou certamente perder £3,000? 92% escolheram a sorte, na esperança de não sair perdendo.

Como é possível observar, a preferência por cada uma das apostas é uma imagem invertida uma da outra, enquadradas como perdas ou ganhos. No domínio positivo, o efeito certeza contribui para uma preferência inversa ao risco, é preferível obter um ganho seguro a um ganho maior que não é certo - a maioria escolhe os £ 3000. Mas no domínio negativo, o mesmo efeito leva a uma preferência ao risco, por uma perda que é provável, mas com alguma chance dela não ocorrer. Se a sorte ajuda, ficamos nos 20% e ganhamos £ 4.000.

Os exemplos anteriores mostram como os riscos são muitas vezes enquadrados, influenciando na tomada de decisão. A compreensão possibilita um melhor entendimento de como nossas decisões são feitas com a possibilidade de adoção de novas perspectivas. E você? Está disposto a rever os riscos e, quem sabe, encontrar novas oportunidades para o seu negócio?